Por Alexandre Fonseca
Receber um livro autografado das mãos da autora, de presente, é uma honraria que qualquer leitor deveria passar. Por esses dias, terminei a leitura do livro A Menina que Queria ir à Guerra, da jornalista Lúcia Rocha e parei por uns instantes, pensei no poder que sua escrita carrega. Nas coincidências e no quanto as narrativas que ela escreve, me causam identificação e me transportam para um passado que não vivenciei, mas parece familiar.
A obra, que recebi de presente de aniversário, importante dizer, é autobiográfica. Revela a história da menina que decidiu ir contra os costumes da época, oposta as descrenças dos mais velhos e com apoio de uma familiar, se tornar jornalista. Quando menciono coincidências, não me sinto exagerando. Tomei a decisão de cursar a faculdade de Comunicação Social quando fiz uma contribuição em um jornal escolar, no meu último ano do ensino fundamental. A autora, teve textos publicados em um exemplar educacional. Mais tarde receberia uma cópia para recordação.
Eu já tinha despertado o interesse pela escrita quando criança. Não lembro ter compartilhado esse episódio em algum texto anterior desta Coluna, que desenvolvia roteiros de filmes, dirigia e gravava com o aparelho da pior resolução que você possa imaginar. Nunca foi um problema! Era divertido e meus amigos entravam na brincadeira. A menina Lúcia, começando a entender o mundo nos primeiros anos da adolescência, tinha total consciência do futuro e o caminho que precisaria seguir para concretizar seu desejo. Tínhamos um sonho, épocas diferentes, sonhos similares.
Me deixando um pouco de lado, tenho que evidenciar como enxergo a jornalista Lúcia Rocha, após algumas interações. Jamais esperaria encontrar na minha carreira como comunicador, uma mulher, que apesar de me conhecer há cerca de 3 anos, estaria disposta a compartilhar tanto. Lúcia ama passar conhecimento adiante. Um de seus propósitos de vida é inspirar o outro a compreender suas potencialidades.
Foi a partir da leitura do seu livro O Menino que Enfrentou Lampião, que surgiu o texto Um Prefeito valente e um Cangaceiro compositor, publicado aqui, na Coluna Dilemas, em julho de 2024. Está chegando o período junino, indico que leia minha resenha antes disso e o livro dela, também, claro. Sua escrita me inspirou tão fortemente, que resultou em um roteiro de um curta-metragem titulado O Cangaceiro Compositor. Tá no YouTube. Tire um tempinho e assista.
Lúcia, quando mais nova, ficou impressionada pelo primo que datilografava sem olhar pro teclado. Me lembrou um momento, meses atrás: ao meu lado o poeta Lalauzinho de Lalau, ficou impressionado por me ver digitar no computador, sem olhar para as teclas. Outra identificação minha com o seu texto. No passado, a menina criou a oportunidade e conseguiu o diploma na área. Naquele tempo, datilografia era primordial. O jornalista que tivesse tal prática, estaria em outro patamar.
A Menina que Queria ir à Guerra é um livro de lições. Não é só sobre a cronologia de vida de Lúcia Rocha, é também um guia, um dicionário, uma bússola para o alcançar o que se foi projetado. A jornalista não queria ir para uma área de grande perigo, pelo contexto geral do conflito, seu objetivo maior era entender e reportar a realidade das pessoas que foram afetadas pelas guerras alheias. Alinhando a sua humanidade jornalística ao talento descoberto de registrar memórias de uma maneira marcante e informativa.
Lúcia era a criança que trocava as brincadeiras infantis por escuta. Ouvia atentamente os causos contados pelas vizinhas, aprendia sobre o universo todinho. Na sua personalidade, a timidez. Quando aluna, sentia desconforto em levantar a mão para opinar ou tirar dúvidas. Na fase adulta, tem muita gente com esse hábito, me incluo até. Venceu obstáculos sempre com a percepção exata da magnitude do exercício da leitura no seu cotidiano. Não só de ler, adicionou o “reler” e o “revisar para melhorar” como lemas das suas jornadas pessoal e profissional. As maiores lições!

Peço licença a Lúcia Rocha para uma citação. Página 61. “Preste atenção que tudo começa com um despertar, vá para o treinamento, capacitação, a primeira oportunidade não pode ser desperdiçada”, escreveu. É o tipo de leitura que encontrará ao consumir seus livros. Palavras de incentivo. A Menina que Queria ir à Guerra é a obra que custou a ser publicada, contudo, foi entregue com o que muitos precisam absorver: sabedoria. Leia, releia e revise. Inspire, receba inspiração e tenha disposição em se desenvolver. É para isso que estamos aqui!
“Quando Deus quer, Ele patrocina qualquer projeto”, Lúcia Rocha.
Alexandre Fonseca é jornalista, cineasta, escritor e produtor cultural.



