A governadora Fátima Bezerra chega a um dos momentos mais delicados de sua trajetória política marcada por um erro central: a ausência de cálculo político. Mesmo com experiência administrativa, sobrou no improviso para construção de um projeto de poder sustentável.
Eleita em 2018 em meio ao colapso financeiro do Estado e reeleita em 2022 ainda no primeiro turno, Fátima seguiu um caminho compreensível até certo ponto, onde priorizou a reconstrução da máquina pública, regularizou folhas salariais e tentou reorganizar as finanças. Esse movimento era necessário. O problema veio depois.
É fácil gostar de Fátima. Sua simplicidade a fez tornar-se referência dentro de seu PT, mas ao invés de transformar a aceitação partidária e capital administrativo em capital político, a governadora apostou que a aprovação da gestão, por si só, garantiria sustentação futura. Não garantiu. Pesquisas de 2024 já mostravam a desaprovação da gestora e isso foi ignorado pela equipe dela. Não houve movimentos robustos para reverter os números negativos.
Faltou o básico da política: articulação, composição e construção de alianças sólidas. Fátima não montou um grupo político, montou um gabinete. Cercou-se de confiança técnica, mas negligenciou a base política. E política, especialmente em momentos decisivos, não se terceiriza. Não se delega articulação. Não se constrói maioria sem negociação. Enquanto isso, o tabuleiro se movimentava.
Walter Alves avançava nas negociações de bastidores. Ezequiel Ferreira se reposicionava com habilidade. Álvaro Dias aguardava o timing ideal. E Allyson Bezerra estruturava, com antecedência, um ambiente político capaz de agregar forças e consolidar um projeto. Fátima fez o oposto: isolou-se.
A escolha do secretário Cadu, um nome técnico, sem lastro eleitoral e desconhecido da população, escancarou essa desconexão com a lógica política. Em um cenário competitivo, lançar alguém sem teste nas urnas é risco e ausência de pragmatismo. Política exige densidade eleitoral, capilaridade e reconhecimento popular, atributos que não se constroem dentro de gabinete, mas nas ruas. O desfecho foi inevitável.
Ao perceber que não teria controle sobre o governo em uma eventual eleição indireta, Fátima recuou da disputa pelo Senado. Quando decidiu fazer as contas políticas, já era tarde. A oposição havia se reorganizado e ocupado os espaços deixados ao longo dos últimos anos.
Faltou plano B. E, na política, quem não constrói alternativas acaba refém dos próprios erros.
O caso de Fátima Bezerra deixa a lição de que governar não é suficiente. É preciso, simultaneamente, fazer política crua, ser combativo. Antecipar cenários, consolidar alianças e construir maioria. A política não perdoa qualquer amadorismo estratégico.
Hoje, o que se vê é o retrato de um governo que até entregou resultados administrativos, mas falhou em sustentar um projeto de poder. E, no fim das contas, poder que não se organiza… se perde.




