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Patrimônio de Caraúbas, taxista Américo tem mais de 60 anos de atividade profissional

Aos 86 anos, diariamente no período da manhã, por volta das 8h, Américo chega ao Mercado Público de Caraúbas

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Américo mantém rotina de taxista há 62 anos - foto: Vonúvio Praxedes/DP

O Gol branco se aproxima silenciosamente e estaciona ao lado da calçada do mercado. Passa a mão no banco traseiro e ajeita o estofado para ficar sempre confortável. Ao descer, baixa os dois bancos da frente para pegar menos sol. Um senhor de chapéu e óculos escuros caminha com um pouco de dificuldade e coloca a placa TAXI no teto do carro. Senta-se numa das cadeiras colocadas pelo amigo Chico Gouveia. Inicia a partir deste instante a espera por passageiros. Américo repete esta rotina há décadas e enquanto aguarda as corridas, cada vez mais difíceis, conversa com amigos sobre o dia a dia da cidade e relembra do passado com saudosismo.

Em Caraúbas, uma história de resistência, trabalho e simplicidade atravessa gerações e permanece viva no ponto de taxistas localizado no Mercado Público Municipal. Aos 86 anos, Américo Augusto de Moraes segue fazendo aquilo que aprendeu desde o início da vida adulta: transportar pessoas, ouvir histórias e servir à comunidade onde construiu sua vida.

Américo continua com mesmo cuidado de quando iniciou a profissão – foto: Vonúvio Praxedes/DP

Nascido numa comunidade rural do município de Umarizal, no dia 13 de março de 1939, Américo veio ainda jovem para Caraúbas, cidade que adotou como lar definitivo. Antes de assumir o volante, passou cerca de 15 anos trabalhando como marchante, profissão tradicional no interior, lidando diariamente com o comércio de carnes.

A virada de rumo veio quando decidiu ingressar no transporte de passageiros. O início foi desafiador. Américo começou utilizando um jipe de grande porte, com capacidade para até oito pessoas, mas tinha um problema: muitas vezes o carro transportava apenas um passageiro, que não aceitava pagar o valor necessário para cobrir os custos da viagem. O prejuízo era certo.

Com experiência adquirida e já contando com uma clientela fiel, Américo decidiu vender o jipe e comprou um carro menor, um Corcel, que marcou definitivamente sua trajetória como taxista. A partir daí, consolidou-se no transporte urbano e rural, levando passageiros não apenas dentro de Caraúbas, mas também para comunidades rurais e municípios vizinhos. Casado, pai de quatro filhos e membro da Assembleia de Deus, garante ter conquistado tudo que sempre quis, com esforço, respeito e simplicidade.

Américo garante que seu celular continua ligado para atender os chamados da clientela de que precisa de transporte.

Américo atende celular com chamado de corrida – foto: Vonúvio Praxdedes/DP

Ao longo de 62 anos de praça, um detalhe chama atenção. É que Américo nunca teve Carteira Nacional de Habilitação. Motorista prático, afirma sempre respeitar as leis e regras de trânsito e, em mais de seis décadas ao volante, nunca se envolveu em acidentes. Chegou a tentar regularizar a situação, mas, segundo ele, acabou sendo enganado e nunca recebeu o documento.

Hoje aposentado, Américo não abandonou completamente a rotina que o acompanhou por toda a vida. Diariamente no período da manhã, por volta das 8h, ele chega ao Mercado Público de Caraúbas, onde permanece até cerca de 10h30 ou 11h, aguardando algum passageiro eventual. O ritmo é mais tranquilo, sem a pressão de antes, mas com o mesmo prazer de conversar e ajudar quem precisa de transporte. Quando perguntado até quando vai ser taxista a resposta é objetiva: “até o dia que morrer”, respondeu firme.

A história de Américo é o retrato de uma geração que aprendeu a trabalhar cedo, construiu a vida com esforço e manteve os laços com a comunidade. Patrimônio caraubense, em cada corrida feita, em cada manhã no mercado, carrega não apenas passageiros, mas memórias vivas da história de Caraúbas.

Américo ao lado de amigos no Mercado Público aguardando chamado da clientela – foto: Vonúvio Praxdedes/DP

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