11 maio 2019

Mossoró e sua cultura negada

A NECESSIDADE DAS IDENTIDADES ENQUANTO RECONHECIMENTO DE SI PARA SE TER RESPEITO A ALTERIDADE E A TENTATIVA DE PERSONIFICAÇÃO BASEADA NA NÃO VALORIZAÇÃO DO ENSINO DA HISTÓRIA LOCAL

Via professor Tales Augusto*

Já se passaram 30 anos desde que Rosalba foi eleita pela primeira vez prefeita da cidade de Mossoró. De lá para cá, a cidade para muitos se revela enquanto parte da própria Identidade da pediatra que está no seu terceiro mandato (num deles foi reeleita). Assim sendo, em 2020 terá 16 anos que governa Mossoró e quando não era prefeita na maior parte das vezes que “ela indicou” quem ocupou a cadeira no Palácio da Resistência.

Segundo Dubar, a Identidade “é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento, a Identidade nunca é dada, é sempre construída e a (re)construir, em uma incerteza maior ou menor e mais ou menos durável”.

E assim se fez, mas para que possamos ter tal construção solidificada é necessário discursos e Foucault no seu A Ordem do Discurso nos dar passos de como tal construção pode atuar de formas diferentes e em áreas diferentes, não se resumindo ao que ouvimos e lemos, imagens, repetições e a sacralização é possível a partir de tais ações.

Aparentemente ações despretensiosas são executadas como a confecção de calçadas com emblema de uma Rosa ou ainda a própria História da Cidade ser alterada, como tentaram de forma nefasta colocar a família Rosado combatendo Lampião que não vingou, ainda bem.

Só que muita coisa mudou de 1989 para 2019, dentre elas a informação via Internet. Não nos enganemos, a mesma Internet que nos proporciona dados, fatos, leituras diversas, pode também ser usada para a perpetuação de Discursos e intenções que buscam desmentir a verdade. Esta, baseando-se em provas e não em devaneios ou acusações vazias.

Pois bem, temos uma mandatária que propaga aos quatro cantos do mundo, inclusive na Alemanha provavelmente que somos a Cidade de maior relevância no estado do Rio Grande do Norte no que concerne a Cultura, só que se esquece de ações que reprovam e desmentem a ela mesmo.

Alçada ao senado em 2006 com o apoio de dois outros oligarcas estaduais, tendo o José Agripino Maia e o Garibaldi Alves Filho como cabo eleitorais. Depois de 55 anos, vimos novamente à ascensão de um Rosado a governadoria (lembrando que a mesma é Rosado devido ser casada com o Carlos Augusto Rosado, esposo e mentor da Rosalba, além de maior articulador das suas campanhas). Entre 2006 até 2010 não temos boas lembranças do seu governo e no que tange a Educação tivemos algo que é de forte impacto na desvalorização da nossa Identidade enquanto potiguares e por sua vez mossoroenses.

A retirada das disciplinas de Cultura do RN que era ensinada do 6º ao 9º ano e de Economia do RN no Ensino Médio.

Aparentemente podemos pensar que 40 a 50 minutos de aulas semanais não são nada, contudo a soma dos 200 dias letivos, temos ao término de cada ano nada mais nada menos que 40 aulas. Somando no Ensino Fundamental II a totalidade de 160 aulas e no Ensino Médio 120 aulas.

É triste saber que o bairrismo tido como marca em estados vizinhos aqui não tem vez e nem voz, nem muito menos disciplina/matéria escolar. Como esperar que venhamos a respeitar aos outros se não nos reconhecemos? Se o poder público que esperávamos ser uma ferramenta de conscientização da Identidade a partir de ações educativas e por sua vez caminho ao respeito das alteridades nem ao mesmo é oferecido? Como nós mossoroenses podemos esperar uma valorização da História, Geografia e Cultura locais mesmo tendo na “Nossa Carta Magna”, a nossa Lei Orgânica premissas que defendem tal adoção e fica apenas no papel?

Observem:

Art. 169. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: (Redação dada pela Emenda 04/2016)

Art. 171. São fixados conteúdos mínimos para a Educação Infantil e Ensino Fundamental, de modo a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais, cívicos e artísticos, nacionais e regionais. (Redação dada pela Emenda 04/2016)

§ 2° – As escolas públicas de Educação Infantil e Ensino Fundamental, incluem entre as disciplinas oferecidas, o estudo da cultura Norte Riograndense, envolvendo as noções básicas da literatura, das artes plásticas e do folclore do Município. (Redação dada pela Emenda 04/2016)

Vale lembrar que a ideia de Identidade se relaciona diretamente ao ideal de pertencimento, todavia o Espaço Local perdeu sua importância ou valor, sendo substituído por novos outros espaços, inclusive espaços virtuais, conhecemos mais o mundo que nossa própria casa.

Mossoró como uma cidade rica em cultura deixa a chance se esvai entre seus dedos, é necessário reflexão e se defrontar com nosso futuro-passado, memória-continuidade, a Identidade e o Bairrismo são importantes, sem negar a Alteridade que nos torna multi, esta que nos leva a entender o outro como diferente, mas jamais como inferior ou superior.

Imaginar que tínhamos Cultura do RN (6° ao 9° anos) e Economia do RN no Ensino Médio até 2014 e a mesma foi retirada por Rosalba quando governadora do estado do Rio Grande do Norte e hoje, a mesma fala que valoriza a Educação e Cultura? Deve achar que somos pessoas sem o mínimo discernimento e criticidade!

Por isso que o mandato de Rosalba soa mais como Personificação/Perpetuação dela e do clã, família, oligarquia Rosado a frente da Prefeitura Municipal de Mossoró, que a uma ação verdadeiramente preocupada com a cidade e os mossoroenses.

Parafrasear um presidente mexicano não custa nada, “Pobre Mossoró, tão perto e sempre governada pelos Rosados e aparentemente mesmo com Deus atuando, não conseguimos ainda nos libertar das amarras desta família!”

*Tales Augusto de Oliveira
É patuense de nascimento e mossoroense por adoção dupla
Historiador, autor do livro HISTÓRIA DO RN PARA INICIANTES (baixe gratuitamente o livro AQUI ), lecionou na rede privada e pública tem duas décadas
Atualmente é professor efetivo do IFRN/Campus Apodi

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